brincadeira

Viola enluarada

image

Música inspira minha arte. Às vezes uma música me faz imaginar um quadro, outras a imagem me lembra uma canção. Geralmente música clássica me inspira em cores, mas o humor e o tema também são envolvidos e misturados por melodias das mais diversas. Almas sensíveis são normalmente tocadas pelo entorno, artistas, acredito, têm pele a menos e terminações nervosas a mais, porque as coisas nos invadem, tudo nos toca, algumas nos afligem, outras nos submergem. Nos afogamos facilmente pelas emoções, do amor à tristeza, toda agua é mar e todo mar é vasto, profundo.
A situação política no Brasil me devasta. Ver pequenas e frágeis conquistas sociais serem pulverizadas como estão sendo, me dá a sensação de que o mal é maior que o bem e que o egoísmo, a ignorância e a ganância são os sentimentos mais presentes na já empobrecida raça humana. Belchior escreveu e Elis cantou: “eles venceram e o sinal está fechado pra nós…”
A única coisa que me consola é a arte. Por ela pode-se denunciar abusos, indicar tiranias, questionar posturas, gritar injustiças, sussurrar dores, até mesmo quando se pinta uma flor ou se canta sobre o pó da estrada. A angústia do artista é tão necessária quanto a empatia pelo próximo. A capacidade de indignar-se diante do mal é a mesma que pinta escancarados e sutis horrores da existência. A arte protesta mas também vislumbra, cria, recorda momentos ideais, tempos bons, memórias saudáveis. A arte pode denunciar mas também pode fazer sonhar com aquilo que
Ainda não está, mas é possivel.
A belíssima música “Viola enluarada” (de Marcos Valle) me acompanhou na criação deste quadro, com sua doce mas profunda poesia. Ouvi várias vezes enquanto pintava. Na inocência dos elementos pintados, a canção martelava-me a alma: “A mão que toca o violão, se for preciso faz a guerra… Liberdade”
Precisamos de mais mãos, de mais igualdade, mais liberdade. Precisamos de festas juninas onde todos tenham o direito de dançar, brincar, comer, existir.
Em tempos de muitas trevas é preciso criar estrelas.
Em tempos com tão poucos motivos para festejar, é preciso trazer música, cor, brincadeira, dança, generosidade, igualdade, amor e cor à vida.
Senão houver memória que pelo menos haja sonho.
E se não conseguirmos sonhar que ao menos existam telas e músicas cheias de cor e poesia para que consigamos apaziguar a alma e seguirmos, perseverando, sem temer.

 

OBRA DISPONÍVEL PARA VENDA: “Festa Junina” – junho/2017 – Luciana Mariano ©