“E o mundo é um local muito mal frequentado”

Confabulando sobre a vida com uma amiga pra lá de especial, recebi sua resposta, sempre despretenciosa e cruelmente sincera. O texto é, entre nuances humorados e ácidos, brilhante. Mesmo não tendo pedido permissão pra ela (ainda), sinto que tenho que publicar no meu blog. (e vou apagar se ela pedir, claro).

Uma mulher de ímpar sensibilidade e inteligência, que sabe misturar, sem moderação, o acolhimento amistoso, a cumplicidade indignada, e a humildade sábia de quem ja viveu 50 primaveras e entende, como ninguém, as angústias que vão no meu coração bobo.

Amei a resposta. Por isso compartilho agora:

“Falou bem colega: hoje em dia só deve estar 100% feliz quem acertou na dose do faixa preta. O que não é o meu caso, ainda.
Eu não acho que os remédios vão curar nossa infelicidade, mas eles colocam rodinhas na mala da vida e fica mais fácil de empurrar o peso dos dias, só isso. E há fases na vida da gente que, vamos combinar colega, a vida vira uma mala sem alça carregada de pedras pesadas demais.

Não consigo acreditar que exista essa tal de felicidade. Acho que ninguém consegue ser feliz o tempo todo. A gente é feliz aqui e ali, de vez em quando, parte do tempo. Alcança sabedoria quem consegue aceitar que a vida é assim mesmo, uma mistura de doce e amargo, de lixo e luxo, de extremos. Quem consegue se desapegar de tudo. E principalmente quem consegue aceitar que todos nós nascemos, vivemos e morremos sozinhos. É assustador, se a gente parar pra pensar. Acho que por isso os homens inventam religiões, crenças, filosofias, sempre tentando aplacar essa angústia que advém da consciência de que viver é um ato solitário, da gente com a gente mesmo, e cada um precisa fazer suas perguntas e buscar suas próprias respostas. E nem todos conseguem. Por isso sofremos tanto e nos decepcionamos tanto com os familiares, quando descobrimos que nossos pais( irmãos, maridos, filhos, amigos etc) não podem nos ajudar nessa busca. E nem nós podemos ajudar nas deles, no máximos só conseguimos ser testemunhas impotentes. Por isso casamos, procriamos, ansiamos por construir pontes com outros seres humanos na tentativa de nos salvarmos dessa consciência dolorosa. E quando os filhos são pequenos ( ou o casamento tá na fase da lua de mel, da paixão) chegamos a acreditar que conseguimos estabelecer uma ponte inquebrável com outro ser humano, mas os anos passam e vemos que era só uma outra ilusão, continuamos sós.

Por isso que desconfio muito de gente que diz que encontrou o caminho pra felicidade e que agora quer ensinar ele pros outros. Não acredito em gente que tá sempre alegre, pra cima, positiva, tenho horror às Polyanas desse mundo. Pra mim gente assim ou é doida ou tá mal informada. Essa vida é uma piada mesmo colega. E o mundo é um local muito mal frequentado. E já reparou como cada vez chegam novos trastes nesse mundo?

Eu na verdade sinto inveja da minha cachorra. Da leveza dela. Da alegria dela com os pequenos prazeres: acordar de manhã balançando o rabo, comida, carinho, passeio no parque, correr livre pelo gramado e a noite dormir na cama comigo, relaxada, sem nenhum medo, nenhum regret, nenhum care in this world. Deve ser ótimo. Próxima encadernação, se isso for mesmo verdade, quero vir como cachorra de madame. Ou coral, no fundo do mar. ”

(…)*

Num é demais?
Pode uma pessoa com tamanha lucidez não dividir essa sabedoria toda com o mundo?
No fundo acho que ela se sente como Raul Seixas quando disse: “sou louco porque o mundo não merece minha lucidez”

Aplaudi de pé.
Obrigada colega.

* Após devidamente autorizada, revelo o nome desta brilhante jornalista, cronista, escritora e mulher: Silvia Dutra

Silvia Dutra é jornalista, graduada pela Metodista de São Bernardo do Campo. Foi repórter e redatora do Jornal da Cidade, de Bauru, e trabalhou na Editora Papirus de Campinas (SP). Reside há 10 anos nos Estados Unidos e mantém o blog Causos da Vida Alheia, que reúne textos de humor, escritos em “caipirês”. Visitem: http://causosdavidalheia.zip.net/

A carinha dela é assim ó:


Obrigada colega. Apesar do mundo ser muito mal frequentado, a gente ainda encontra pessoas, cachorros e lugares que ainda valem a pena! Beijocas.

Advertisements

One comment

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s